Acústica e aprendizado

Já falamos aqui da necessidade de cuidar a acústica dos restaurantes, de que cada um tem necessidades acústicas diferentes e que podem ajudar a fidelizar seus clientes.

No entanto, existe um outro tipo de ambiente cuja necessidade acústica é fundamental que ainda é deixado de lado: as salas de aulas escolares.

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No post sobre os restaurantes foi comentado que em um ambiente muito reverberante pode ocorrer de não entendermos as pessoas em nossa própria mesa, ou os garçons não entenderem nossos pedidos, além do risco para saúde dos que trabalham no local, refletidos em dores de cabeça, possíveis perdas auditivas, aumento do estresse, entre outras. Na situação oposta, se tivermos um ambiente muito silencioso corremos o risco de ter que sussurrar para mantermos a privacidade da nossa conversa, qualquer barulho pode ser percebido.

Acústica das salas de aulas

Pensemos agora em uma sala de aula. Geralmente, são ambientes “práticos”, ou seja, com paredes e tetos lisos, carteiras ou mesas com laminados lisos ou de plástico assim como as cadeiras e os pisos vinílicos, cerâmicos em superfícies muito duras.

Em geral, as salas de aulas possuem poucas superfícies acusticamente absorvedoras, logo há um elevado tempo de reverberação. Como consequência o professor terá que falar mais alto para poder ser entendido pelos alunos, aumentando o risco de dano às suas cordas vocais. Em um ambiente muito reverberante as palavras se fundem e temos dificuldades para entender a mensagem falada. No caso de escolas de ensino fundamental, em que as crianças precisam entender tudo o que está sendo dito, a dificuldade de compreender todas as palavras coloca em sério risco seu aprendizado, logo seu futuro.

Problemas reais

Certa vez fui chamado a uma escola básica para conversar com o diretor que queria fazer um projeto acústico em uma sala. Lá chegando notei que ele falava naturalmente alto e na sala de aula os alunos sentados no fundo não conseguiam me ouvir. Alguns me disseram que além das dificuldades de entender a aula ainda chegavam em casa com dores de cabeça. Não posso afirmar, mas essa dor de cabeça pode ser consequência do excesso de ruído a que estão expostos diariamente.

Em outra escola o problema era que todas as salas tinham acesso direto ao pátio interno, ambiente com grande volume e elevada reverberação e algumas com janelas ou para a rua principal do bairro ou para a quadra de esportes. Junto a isso, os intervalos de aula eram diferentes para cada série, o que atrapalhava quem ainda estava em aula. Nessa escola alguns professores estavam recebendo microfones com amplificadores para poder dar aulas sem forçar a voz, isto é, combater o ruído com mais ruído!

Veja mais um caso real na matéria do portal G1 sobre o nível de ruído em escolas.

Esse problema de falta de tratamento acústico permeia nossa sociedade em diferentes níveis. Lembro do caso da nova sede do Tribunal Superior Eleitoral em que o excesso de reverberação tornou o local impróprio para o uso.

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Projetos acústicos

Mais do que os restaurantes, as escolas precisam de projetos acústicos cuidadosos, seja para isolar os ambientes, seja para controlar a reverberação interna das salas. Com o tratamento acústico correto os professores não precisam forçar a voz e os alunos fazem menos esforço para entender a aula, aprendem mais.

Além do uso de materiais acústicos para correção da reverberação sonora, outras soluções arquitetônicas podem ser consideradas nos projetos das escolas como o afastamento das salas de aulas de fontes de ruído como ruas ou áreas de lazer ou esporte e evitar salas com paredes paralelas. Tais medidas auxiliam no projeto acústico reduzindo custo com materiais acústicos.

Esse é um problema de base, em que a arquitetura junto com a acústica podem fazer a diferença para melhorar os índices de aprendizado dos nossos alunos e, em médio e longo prazo, o desenvolvimento do país.

E você já parou para observar como é a sala de aula da escola dos seus filhos ou a que você frequenta? Será que ela é própria para o ensino?

 

Por Vitor Litwinczik