Desempenho x conforto acústico

abntA norma de desempenho NBR 15575 tem gerado muita discussão e dúvida por parte das construtoras e fornecedores, e ao mesmo tempo, esperança nos consumidores em terem apartamentos com melhor qualidade acústica.

O consumidor está confiante de que terá o sonhado silêncio e não ouvirá mais o caminhar dos vizinhos, ou outros ruídos indesejáveis. As construtoras estão com medo de terem que aumentar custos de obra para atender às novas exigências. Será que esses sentimentos procedem?

O lado do consumidor

A norma NBR 15575 determina limites mínimos de desempenho para as construções. No caso da acústica, esses limites são os mesmo prescritos na norma NBR 10152 – Níveis de ruído para conforto acústico, de 1987, ou seja, apenas está usando índices em vigor a 25 anos!

A tabela a seguir apresenta os níveis indicados na NBR 10152:1987

Local Ambientes  dB(A)   NC
Residências Dormitórios
Salas de estar
35 – 45
40 – 50
30 – 40
35 – 45

Essa norma NBR 10152 “fixa os níveis de ruído compatíveis com o conforto acústico em diversos ambientes” e determina dois índices a serem atendidos: o nível de Ruído global (dBA) e as Curvas de avaliação de ruído (NC). Esses níveis são apresentados em dois limites, onde o inferior é definido como de conforto e o superior como nível aceitável para a finalidade do ambiente. As curvas NC descrevem o comportamento do ruído na frequência e servem para avaliar e definir medidas de correção ou redução de níveis de ruído. Voltando à norma de desempenho NBR 15575, ela não faz menção à essas curvas, mas apenas aos nívies globais.

O atendimento completo dessas duas normas deveria garantir o conforto acústico, de uma forma geral os índices definidos proporcionam isso, mas como conforto é algo muito subjetivo, isso nem sempre é verdade. Veremos um caso mais adiante.

O lado das construtoras

Tenho acompanhado as notícias e participado de eventos e discussões a respeito dessa norma de desempenho e percebo que existe um medo por parte das construtoras em ter que aumentar custos de obra para atender às novas exigências. Porém, me parece que esse medo está apenas ligado ao desconhecido, ou seja, a falta de conhecimento sobre acústica e de seus parâmetros gera insegurança quando se fala em desempenho das construções.

Com o surgimento da norma de desempenho estamos realizando vários ensaios de desempenho acústico em construções e observo que boa parte das obras atendem ao mínimo exigido. Por vezes os níveis de desempenho superam com boa margem de segurança ao nível mínimo exigido. Nesses casos, o construtor, além de ficar tranquilo quanto ao trabalho que vem realizando, tem a possibilidade de escolher simplificar seus processos construtivos, reduzindo custos de obra e garantindo o atendimento à nova norma. Ou seja, para quem já construía seguindo as normas existentes, essa nova norma não parece ser um problema.

A norma NBR 15575 trata de desempenho acústico e não de conforto acústico. Como o que é conforto varia para cada pessoa, é necessário definir índices que sejam representativos da média geral para tornar as avaliações objetivas, a custa de ter que avaliar caso a caso e inviabilizar qualquer processo construtivo moderno. Então quando falamos de normas técnicas, falamos de índices objetivos e possíveis de serem determinados seguindo procedimentos claros e definidos.

Construtora e consumidor

A meu ver, a norma de desempenho NBR 15575, além de ser uma grande oportunidade para alavancar o desenvolvimento tecnológico na construção civil, serve como um suporte objetivo para dirimir dúvidas quanto ao desempenho de uma construção.

Vejamos um caso. Recentemente estive num apartamento onde o morador reclamava do ruído. Logo vem o comentário sobre a qualidade da construção. Fizemos algumas medições de ruído em seu dormitório e concluímos que tanto o nível de ruído global, quanto as curvas NC estavam de acordo com o prescrito na norma NBR 10152, isto é, deveriam garantir o conforto acústico para a finalidade do ambiente, no caso um dormitório. Mesmo assim o morador dizia que era impossível dormir no quarto devido ao tipo de barulho. Seu vizinho de baixo tinha um ventilador de teto que gerava um ruído que, embora dentro dos limites, era muito incomodativo. Nesse caso vemos que mesmo respeitando os parâmetros de normas técnicas o ambiente não proporcionava o conforto acústico esperado.

Essa é uma situação em que possivelmente a norma NBR 15575 iria proteger a construtora. Nem sempre presença de ruídos inconvenientes é provocada pela qualidade da construção.

Como a norma será cobrada a partir do próximo ano, maio de 2013, ainda há tempo para as construtoras fazerem os testes de desempenho acústico e saberem se suas formas de construir atendem às novas regras ou se precisarão mudar algo para garantir que suas obras proporcionem o desempenho recomendado.

Por Vítor Litwinczik